Não sei quando o cargo de “porta-voz” da família me foi dado, mas sei que desde q me entendo por gente e acho q sei escrever mais ou menos bem, virei redatora oficial dos Rocha. Talvez por ter nascido meio fora da ordem e por circular mais facilmente entre as gerações consiga ter uma visão mais “neutra” dessa gente toda que me cerca. Ano passado, no centenário do meu avô escrevi um texto sobre ele, que foi lido na missa e depois virou até post. Lembro de ter ficado triste, nessas horas a saudade aperta, mas no fim, consegui ser emotiva sem perder a objetividade, até li o texto sem me debulhar em lágrimas antes do fim.
Meu avô era um homem de muita personalidade, as características dele eram óbvias: ele brigava, ele dava aulas, ele era bravo. Hoje, se viva, minha avó completaria 100 anos. Dou um doce pra quem adivinhar a cargo de quem ficou o texto-homenagem. Pois é. Mas com ela a coisa é diferente, me doeu mais escrever, as lembranças dela são mais sutis, mais delicadas, a visão embaça com mais facilidade, o coração aperta mais rápido.
Maria de Lourdes Bicalho, ou vó Lulute, nasceu em 12 de fevereiro de 1908, o rosto tranqüilo e a voz macia não indicavam a mulher forte que era. Casou-se com um homem de personalidade forte, mas nunca se deixou apagar. Se rendeu à vida na fazenda, mas era uma cidadã do mundo. “Uma mulher a frente de seu tempo, que guiava, fumava e usava calças compridas, em uma época que poucas mulheres faziam isso”, me disse uma vez meu pai. Com seu jeito mandava, sem parecer mandar, brigava, sem parecer brigar, mas amava, fazendo questão de demonstrar isso.
A coçadinha com as mãos, as cantigas de ninar na rede, a geléia de jabuticaba, a cadeira de balanço, os apelidos que ela inventava, a horta bem cuidada, a mesa sempre farta, o famoso bolo de natal… Ah, o Natal! Com as meinhas de moedas, as cestinhas com miniaturas d’O Boticário e parte da família encarando horas de viagem até Taubaté para ela poder almoçar no dia 25 com todos os filhos, noras, genro e netos reunidos. Gostava de andar na chuva, de romances de banca de jornal, de jogar paciência e do Jorge Amado, mas não lia os palavrões: “eu pulo, minha filha”, dizia ela. Colecionava National Geographic, xicrinhas de café e guardava em álbuns todos os postais que recebia.
Em 1908 foi comemorado o primeiro dia das mães, e eu acho q tem a ver com o nascimento dela.